O fabricante de misses.
O médico carioca Waldyr Ceciliano diz ter "customizado" 5 mil pacientes de modelos a senadoras - com técnicas sem bisturi, como a "biomodulação"
"Doutor, eu quero ter a mandíbula da Alinne Moraes"
Waldyr Ceciliano, de 45 anos, especialista carioca em medicina estética, já tem a resposta pronta para pedidos como esse, comuns em seu consultório. "Creio que a Alinne não cederá de bom grado a mandíbula para a senhora. Mas podemos melhorar a sua". Apelidado "escultor de mulheres" pelas pacientes, Ceciliano diz já ter atendido 5 mil clientes. Entre elas estão as quatro últimas vencedoras do concurso Miss Rio de Janeiro (e muitas perdedoras também). Passaram por suas mãos - embora Ceciliano não confirme - celebridades como a atriz Letícia Spiller e as senadoras petistas Ideli Salvatti e Serys Slhessarenko.
Ceciliano não revela nomes de pacientes. Sua clínica na Barra da Tijuca tem uma porta secreta para as que não querem cruzar com ninguém na sala de espera. Apesar de formado em cirurgia geral, ele não usa o bisturi. A "medicina estética" não é sinônimo de plástica.
Em seus procedimentos - de nomes complicados, como "ozonioterapia", "laserlipólise" e "biomodulação" - não há cortes nem é preciso afastar-se da rotina profissional e social. "O que fazemos é uma customização do corpo", diz Ceciliano.
A busca da beleza é seu ganha-pão desde que desistiu da cirurgia geral, no começo dos anos 90, e passou a se dedicar à medicina estética, uma especialidade que ainda não é formalmente reconhecida. Mesmo ganhando bem - a primeira conversa custa
R$ 150, e os tratamentos entre R$. 1.200 e R$ 9 mil, Ceciliano garante que aconselha muitas pacientes a não mexer naquilo que já têm. "Moças lindas entram no meu consultório sem saber exatamente o que pedir. Querem que eu aponte defeitos que nem elas conseguem ver".
A Miss Duque de Caxias, Mariana Notarângelo, de 18 anos, ganhou um maxilar novo com preenchimento de polimetil-metacrilato (plástico usado em próteses ósseas) e levantou as sobrancelhas com um pouco de Botox, dois detalhes que, ela acreditava, podiam deixá-Ia mais perto do cetro e da coroa. A Miss Cidade do Rio, Luana Reis, de 22 anos, fez três sessões de um aparelho que usa ultra-som para romper o tecido adiposo (a gordura). Os quadris passaram de 94 para 92 centímetros. "Se Martha Rocha (segunda colocada no Miss Universo em 1954, derrotada pelos quadris largos) tivesse feito esse tratamento, teria ganho": diz Ceciliano.
Presidente da Associação Internacional de Medicina Estética, Ceciliano recebeu na semana passada mil médicos do mundo inteiro para um congresso mundial do setor. Ele mesmo apresentou dois anos atrás, num evento na Espanha, a técnica da "biomodulação" - segundo ele, uma abordagem completa de uma região do corpo, cuidando simultaneamente de pele, músculos e outros tecidos. Ceciliano dá um exemplo da utilidade da técnica: tratar as nádegas. "Um médico pode transformar um bumbum feio pequeno em um bumbum feio grande, simplesmente": diz. "Ou tratar de tudo ao mesmo tempo - manchas, estrias, celulite e flacidez - e chegar a um bumbum grande e belo". Um dos sucessos de sua clínica é a biomodulação dos órgãos genitais femininos. Segundo Ceciliano, cada "vez mais mulheres estão prestando atenção nessa parte do corpo. O tratamento recupera a gordura perdida com o passar dos anos, aumenta o volume e diminui a flacidez do tecido. " Isso auxilia na auto-confiança e no prazer", afirma.
Os homens aparecem na clínica de Ceciliano com freqüência crescente. Hoje representam 20% da clientela. A idade média vem caindo. Adolescentes chegam com capas de revistas nas mãos e querem ser iguais a modelos e atrizes. "Antes que elas me peçam qualquer tratamento, explico que as fotos das revistas são alteradas no computador", diz.
Ciente de que o mercado desse setor cresce 35% por ano no Brasil, movimentando
R$ 500 milhões em tratamentos estéticos, Ceciliano ajuda a formar novos profissionais dando aulas em um curso particular. A procura é grande, e a evolução do setor também. "Cada turma que se forma, a cada seis meses, conhece um novo aparelho ou técnica que a turma anterior ignorava", diz.
Casado, pai de dois meninos, Ceciliano passa o dia agarrado a um Blackberry, aparelho que é um misto de celular e gerenciador de e-mails. "Especialista em medicina estética é como psicólogo, precisa ser achado a qualquer hora", afirma. Ceciliano diz trabalhar de dez a 12 horas por dia, e só se esquece da beleza alheia quando pega sua prancha de surfe (do tipo long-board, maior que as convencionais) e vai para o mar da Barra (bairro onde mora), quando anda de skate ou está em uma de suas três sessões semanais de corrida e musculação. Ceciliano conta que não imaginava que ele mesmo um dia sentiria necessidade de um tratamento estético - até que notou uma flacidez nos músculos da face, conseqüência da idade e do hábito de correr. Implantou um fio de silicone na bochecha para levantar o rosto. "Se eu não contar que fiz, ninguém repara. Essa é a chave do tratamento bem-feito".